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Representatividade feminina é baixa na política de São Bernardo

  • 26 de nov. de 2016
  • 4 min de leitura

Mesmo com projetos que beneficiam as mulheres na política feitos na Reforma Eleitoral de 2015, apenas uma mulher foi eleita na cidade

Nas eleições de 2016 em São Bernardo do Campo (SP) apenas uma mulher, de mais de 200 candidatas, foi eleita ao cargo de vereadora. Ana Nice Martins de Carvalho, filiada ao Partido dos Trabalhadores (PT), recebeu 4090 votos, o que representa 1,05% do colégio eleitoral do município. Décima colocada no pleito para vereador, a metalúrgica recebeu 1.415 votos a mais que a segunda candidata mais votada da cidade, Lia Duarte de Oliveira Feliciano, do PSDB.

A pequena porcentagem de votos recebida por Ana Nice demonstra a pouca representatividade feminina na política. Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), no Brasil 52% dos eleitores são mulheres e 47% são homens. Mas, embora a participação feminina no exercício do voto seja maior, o mesmo não acontece em relação à disputa dos cargos políticos administrativos.

Dona do maior colégio eleitoral do ABC, São Bernardo conta com 611.786 eleitores. Desses, 287.179 são mulheres. Na eleição de 2016, porém, apenas 31% eram candidatas, número que corresponde a 222 dos 713 aspirantes a vereador do município.

Na disputa do cargo para prefeito, a situação parece ainda pior: não houve candidatura feminina, o pleito foi concorrido apenas entre seis homens. Além disso, nas eleições para vereador em 2015, nenhuma mulher foi eleita.

Estabelecida na Lei das Eleições em 1997, a cota de gênero, que garante a participação das mulheres na política, define que 30% dos candidatos do partido sejam do sexo feminino. A agremiação política que não conseguir atingir essa margem, deve reduzir a quantidade de homens que disputam as eleições. [if !supportLineBreakNewLine] [endif]

Entretanto, apenas essa resolução não foi suficiente para mudar o quadro da participação feminina na política. Na reforma eleitoral de 2015, foi concluído que pelo menos 5% do valor do Fundo Partidário deve ser destinado a programas e ações que valorizem a presença da mulher no cenário político. Outros 5% dos recursos devem ser aplicados nas campanhas das candidatas do partido.

Isso não significa, porém, que todas as agremiações fizeram o que foi resolvido na reforma eleitoral. O partido PPS, segundo a candidata a vereadora Sandra do Leite, não passou informações sobre o investimento do Fundo Partidário. “Os partidos em geral não são nada democráticos e não nos dão acesso a tais informações. O PPS de São Bernardo, por exemplo, não tem o PPS Mulher, o que faz muita falta no desenvolvimento das candidaturas femininas e restringe os projetos voltados para o nosso segmento” citou Sandra.

Para a candidata, os partidos políticos não se preocupam em eleger mulheres, mas em compor a chapa com o número exigido pela lei. Na sua opinião, a implementação de cotas é uma alternativa para aumentar a participação feminina na política. “Tínhamos que ter 30% de cadeiras na Câmara Municipal destinadas às mulheres e não 30% de candidaturas femininas”, comparou.

Renata Rocha, filiada do PSDB, tem o mesmo pensamento. Ela, que também foi candidata a vereadora por São Bernardo, defende que a reforma eleitoral possibilitou uma maior porcentagem de mulheres nos partidos, mas que isso não quer dizer que elas possuem de fato mais autonomia e apoio. “Foram alcançadas as metas, as porcentagens, nós tivemos o maior número de candidatas mulheres, mas isso não é o suficiente para eleger uma mulher”, disse.

A candidata conta que a agremiação destinou 5% do Fundo Partidário para as campanhas femininas, mas que para ela isso não é o suficiente para empoderar, unir e tornar as mulheres aptas. Renata acredita que se as mulheres recebessem mais apoio dos seus partidos, a representatividade aumentaria. “Um apoio que não fosse velado, que não fosse mentiroso, um apoio de fato, tanto na parte de marketing, como na parte financeira”.

A pouca participação feminina na política também pode ser explicada pelo histórico político do Brasil. Segundo o sociólogo José Cristiano Mansur, a política foi feita por e para homens. “A mulher durante muito tempo tinha o seu papel social limitado a ser mãe e esposa. E, agora, gradativamente, com muita resistência por parte dos homens, está encontrando espaço político”.

Mansur explica que a mulher foi excluída das decisões políticas e que o machismo também eximiu o homem das responsabilidades domésticas, fazendo-as recair todas para a mulher. “Por isso, a mulher teve sua autonomia tolhida ao longo do tempo.” Conforme o sociólogo, ela se via condenada a escolher o que dar prioridade.

Sandra do Leite relata que sentiu na pele essa questão histórica. “Eu sempre enfrentei com coragem e determinação, mas de verdade só consegui me destacar mesmo depois de me separar e meus filhos crescerem, pois as responsabilidades domésticas absorvem muito a mulher e pouco o homem”.

A falta de representatividade feminina leva também a um problema ainda maior. De acordo com o sociólogo, com um número reduzido de mulheres nas câmaras, as aprovações de leis de interesses femininos ficam ainda mais difíceis. “Isso ocorre porque somente o agente da causa é que tem condições reais de lutar e decidir sobre seus próprios interesses. Não é justo ter homens decidindo o que é bom ou não para as mulheres. A preocupação nunca será a mesma”, disse Mansur.

Nenhuma mulher presente na 35ª sessão ordinária na Câmara de São Bernardo.


 
 
 

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